A cidade de Mirassol tornou-se um dos primeiros municípios do Brasil a receber a vacina contra a chikungunya — a primeira desenvolvida no mundo para prevenir a doença. A partir de 2 de fevereiro, moradores de 18 a 59 anos poderão ser imunizados gratuitamente nas unidades de saúde da cidade. Ao mesmo tempo, o município passa a ocupar posição estratégica em um estudo nacional que avalia a efetividade do imunizante em condições reais, com participação da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e Fundação Regional Faculdade de Medicina (Funfarme).
A vacina foi desenvolvida pela farmacêutica Valneva em parceria com o Instituto Butantan e aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025. O Ministério da Saúde selecionou dez municípios em quatro estados para a introdução inicial do imunizante, considerando critérios como risco epidemiológico, histórico recente de casos e capacidade de implementação rápida no sistema público de saúde.
Em 2024, Mirassol registrou salto expressivo nos casos de chikungunya, passando de um único caso provável no ano anterior para 833 notificações, segundo dados do Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde. O cenário contribuiu para que o município fosse incluído na estratégia nacional de vacinação e no estudo coordenado pelo Instituto Butantan.
Além da imunização, a cidade também é palco de um inquérito sorológico conduzido por pesquisadores da Famerp, do Centro Integrado de Pesquisas (CIP) do Hospital de Base e da Secretaria Municipal de Saúde. As equipes realizam visitas domiciliares para coletar amostras de sangue e entrevistar moradores, com o objetivo de identificar a circulação prévia do vírus, inclusive em pessoas que não apresentaram sintomas.
“Nós vamos acompanhar a liberação da vacina, junto com o Butantan, para avaliar o impacto real da vacina e aprimorar estratégias de controle da doença”, afirma o virologista Prof. Dr. Maurício Lacerda Nogueira, diretor de pós-graduação da Famerp e um dos coordenadores do estudo.
Reconhecido como uma das principais referências nacionais no estudo de viroses, o professor da Famerp destaca que a chikungunya segue sendo subestimada. “Não se trata apenas de uma febre passageira. Em muitos casos, a dor articular se torna crônica e incapacitante. Estamos falando de pessoas que deixam de trabalhar, de produzir, de ter qualidade de vida”, afirma.
A chikungunya é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue e da Zika. Os sintomas mais comuns incluem febre alta de início súbito, dores intensas nas articulações, dor muscular, cefaleia e manchas na pele. Em casos menos frequentes, a infecção pode atingir o sistema nervoso central, causando complicações neurológicas.
Sem antiviral específico disponível, o tratamento atual é apenas sintomático, com uso de analgésicos, antitérmicos, repouso e hidratação. A vacina surge, portanto, como uma ferramenta central na prevenção da doença. Nos estudos clínicos realizados no Brasil e nos Estados Unidos, cerca de 99% dos voluntários desenvolveram anticorpos neutralizantes após uma única dose.
Segundo o Ministério da Saúde, em 2024 foram registrados 263.502 casos e 246 mortes por chikungunya no Brasil. No cenário global, o país ocupa a segunda posição em número absoluto de casos, atrás apenas da Índia.
Para o Prof. Dr. Maurício Lacerda Nogueira, a combinação entre vacinação e vigilância ativa pode mudar o enfrentamento da doença no país. “A vacina, sozinha, não resolve tudo. Mas quando ela é aplicada em um território monitorado, com acompanhamento científico rigoroso, temos a chance de produzir evidências sólidas para orientar políticas públicas em escala nacional”, afirma.
O Instituto Butantan também irá acompanhar a segurança do imunizante em estudos pós-comercialização, incluindo o monitoramento de adultos vacinados e de gestantes que eventualmente tenham sido imunizadas sem saber da gravidez. A participação nos estudos é voluntária.
Enquanto isso, autoridades de saúde reforçam que a população deve permanecer atenta aos sintomas e procurar atendimento médico em caso de febre associada a dores articulares ou no corpo. A expectativa é que os dados produzidos em Mirassol sirvam de base para a expansão da vacinação e para novas estratégias de controle da chikungunya em outras regiões do país.

















